“Vou esperar porque o inventário está caro”: quanto custa adiar?
Na simulação que fiz para uma herança de R$ 500 mil em Minas Gerais, regularizar em 2021 custaria R$ 25.012,30 em imposto e escritura. Esperar até outubro de 2026 elevaria essa conta para R$ 50.403,22: uma diferença de R$ 25.390,92.
“Vou esperar porque o inventário está caro.” Ouço essa frase com frequência, e eu entendo. Depois de uma perda, são muitas decisões, documentos e despesas ao mesmo tempo. Deixar o inventário para depois parece uma forma de aliviar o orçamento e poupar a família de mais desgaste num momento difícil.
O problema é que o tempo não congela a conta. Quando o imposto da herança também fica sem pagamento, ele passa a correr com multa e juros. E, enquanto isso, as tabelas do cartório continuam sendo atualizadas.
Neste artigo, mostro como fiz essa simulação, de onde vem cada real a mais e o que dá para fazer para não perder dinheiro, mesmo quando a família ainda não está pronta para concluir o inventário.
A simulação: uma herança, dois caminhos
Imagine uma família de Belo Horizonte. O pai faleceu em 7 de abril de 2021 e deixou uma herança tributável de R$ 500 mil, já excluída a meação da viúva. A declaração do imposto foi entregue completa dentro de 90 dias. A partir daí, a família tinha dois caminhos.
Caminho 1: regularizar em 2021. O imposto (ITCMD) é pago em 30 de junho de 2021, dentro do prazo do desconto de 15%. A escritura de inventário é lavrada em 8 de outubro de 2021.
Caminho 2: esperar. O imposto vence em 4 de outubro de 2021 e fica sem pagamento. Cinco anos depois, a família decide regularizar: paga o imposto integralmente e por iniciativa própria em 7 de outubro de 2026, sem ação fiscal, e lavra a escritura no dia seguinte.
| Despesa | Regularizar em 2021 | Regularizar em 2026 | Diferença |
| ITCMD | R$ 21.250,00 | R$ 44.880,08 | + R$ 23.630,08 |
| Escritura (emolumentos + taxa de fiscalização) | R$ 3.762,30 | R$ 5.523,14 | + R$ 1.760,84 |
| Total | R$ 25.012,30 | R$ 50.403,22 | + R$ 25.390,92 |
A família que esperou pagou praticamente o dobro em imposto e escritura. E isso sem contar nenhuma outra despesa.
O que a conta considera. A base da escritura foi mantida em R$ 500 mil nos dois anos. Os juros seguem a tabela oficial de outubro de 2026 e incidem sobre o imposto e a multa, sem correção monetária separada pelo mesmo período.
O que a conta não considera. Honorários, ISS, custas de registro, certidões e outras despesas ficaram de fora. É um exemplo específico, não uma regra de que todo inventário dobra de custo.
De onde vem cada real a mais
O aumento de R$ 25.390,92 tem três origens. Duas delas vêm do atraso no imposto; a terceira, não.
1. O desconto que ficou para trás: R$ 3.750,00. Em Minas Gerais, o ITCMD sobre essa herança é de 5%, ou seja, R$ 25.000,00. Pago dentro do prazo e cumpridas as condições, o imposto tinha desconto de 15% e caía para R$ 21.250,00. Quem espera perde esse desconto logo de saída.
2. Multa e juros pelo atraso: R$ 19.880,08. Depois do vencimento, o imposto sem desconto, de R$ 25.000,00, recebe multa de mora de R$ 3.000,00. Na hipótese de pagamento integral e espontâneo adotada nesta simulação, a multa corresponde a 12% do imposto, pois o atraso ultrapassa 60 dias.
Os juros, calculados conforme a tabela oficial para pagamento em outubro de 2026, somam R$ 16.880,08: R$ 15.071,50 sobre o imposto e R$ 1.808,58 sobre a multa. Assim, o imposto e seus encargos chegam a R$ 44.880,08 — aproximadamente 79,5% acima do imposto original, sem desconto.
| Encargo | Valor |
| Multa de mora — 12% sobre R$ 25.000,00 | R$ 3.000,00 |
| Juros sobre o imposto | R$ 15.071,50 |
| Juros sobre a multa | R$ 1.808,58 |
| Total de juros | R$ 16.880,08 |
| Multa + juros | R$ 19.880,08 |
3. A atualização das tabelas do cartório: R$ 1.760,84. Aqui não há multa. As tabelas de emolumentos do TJMG são atualizadas periodicamente, e a mesma escritura, com a mesma base de R$ 500 mil, simplesmente custa mais em 2026 do que custava em 2021.
| Origem do aumento | Valor | Participação |
| Juros sobre imposto e multa | R$ 16.880,08 | 66,5% |
| Desconto de 15% perdido | R$ 3.750,00 | 14,8% |
| Multa de mora (12%) | R$ 3.000,00 | 11,8% |
| Atualização da tabela do cartório | R$ 1.760,84 | 6,9% |
| Total | R$ 25.390,92 | 100% |
O recado da tabela é direto: quase todo o prejuízo vem do imposto não pago, e não do inventário em si.
Dá para pagar o imposto antes de terminar o inventário
Esta é a informação que mais surpreende as famílias: o imposto pode ser pago no prazo mesmo que o inventário seja concluído depois. São coisas ligadas, mas independentes.
Na prática, isso significa que a família pode:
- Reunir as informações dos bens e entregar a declaração do ITCMD;
- Pagar o imposto dentro do prazo, aproveitando o desconto quando ele for aplicável;
- Concluir a escritura de inventário quando estiver mais preparada, emocional e financeiramente.
Na simulação, só essa decisão teria evitado o desconto perdido, a multa e os juros: R$ 23.630,08 dos R$ 25.390,92 de diferença. Restaria apenas a atualização da tabela do cartório.
E se não houver dinheiro para pagar o imposto? É uma situação comum: a herança é um imóvel, e não há dinheiro em conta. Nesses casos, vale analisar com antecedência as alternativas, como usar valores deixados pelo falecido em contas e aplicações, combinar um rateio entre os herdeiros ou planejar a venda de um bem. O importante é que essa conversa aconteça antes do vencimento, e não cinco anos depois.
Adiar também tem custos que não aparecem na conta. Além do dinheiro, o inventário parado traz outros problemas:
- Enquanto o imóvel continua no nome do falecido, vendê-lo ou dá-lo em garantia fica muito mais difícil;
- Um comprador interessado pode desistir diante da demora;
- Herdeiros mudam de vida, de cidade e de opinião, e o consenso que existia pode desaparecer;
- Se um herdeiro falece antes da partilha, a família passa a lidar com mais de um inventário;
- Documentos se perdem, e as pessoas que sabiam onde estava cada coisa deixam de estar por perto.
Conhecer o custo é o primeiro passo
Não escrevi este artigo para apressar ninguém. O luto tem o seu tempo, e cada família sabe o que consegue enfrentar em cada momento.
Mas decidir esperar deve ser uma escolha informada, e não um custo descoberto anos depois. Saber quanto custa o inventário hoje, qual é o prazo do imposto e o que acontece se ele vencer permite organizar o próximo passo com calma, respeitando o momento da família.
Se vocês estão nessa situação, três perguntas ajudam a começar:
- Quando foi o falecimento e qual é o prazo do imposto no nosso caso?
- Ainda é possível aproveitar algum desconto?
- Se o prazo já passou, quanto o imposto custa hoje e quanto custará daqui a um ano?
Quer saber quanto custa de verdade deixar isso para depois? Você pode me mandar uma mensagem para conversarmos sobre o seu caso.
Simulação hipotética, com fins informativos. Os valores dependem de cada caso concreto e não substituem uma análise individual.
Fontes da simulação
- Decreto/MG nº 43.981/2005 (Regulamento do ITCMD)
- Resolução SEF/MG nº 2.880/1997 (juros de mora)
- Comunicado SAIF nº 030/2026
- Tabelas oficiais de emolumentos do TJMG de 2021 e 2026
